O Realismo e o Naturalismo em Portugal
Professora Danielle Medici
“Apaixonada ‘como nunca’ pelo marido, ela transforma-se em criada, a mando de Juliana, até Jorge pegá-la em flagrante e demitir a empregada. Luísa, depois de rezar, jogar na loteria, e até mesmo de tentar se entregar a um banqueiro para conseguir o dinheiro da chantagem, conta seu segredo a Sebastião, um amigo de Jorge, que promete ajudá-la.”
REALISMO EM PORTUGAL
l Realismo na literatura
l Motivados pelas teorias científicas e filosóficas da época, os escritores realistas desejavam retratar o homem e a sociedade em sua totalidade. Não bastava mostrar a face sonhadora e idealizada da vida como fizeram os românticos; era preciso mostrar a face nunca antes revelada: a do cotidiano massacrante, do amor adúltero, da falsidade e do egoísmo humano, da impotência do homem comum diante dos poderosos. Em lugar do egocentrismo romântico, verifica-se um enorme interesse de descrever, analisar e até em criticar a realidade. A visão subjetiva e parcial da realidade é substituída pela visão que procura ser objetiva, fiel, sem distorções. Em lugar de fugir à realidade, os realistas procuram apontar falhas como forma de estimular a mudança das instituições e dos comportamentos humanos. Em lugar de heróis, surgem pessoas comuns, cheias de problemas e limitações. Na Europa,o realismo teve início com a publicação do romance realista Madame Bovary (1857) de Gustave Flaubert.
REALISMO EM PORTUGAL
l Contexto Histórico
- 1865: progresso e desenvolvimento;
- Substituição de sua cultura clérico-aristocrática por uma cultura laica, burguesa, tendo como público a massa alfabetizada;
- Estagnação a partir de 1891, crise dos setores avançados “Geração de 70”.
REALISMO EM PORTUGAL
l QUESTÃO COIMBRÃ E AS CONFERÊNCIAS DO CASSINO LISBONENSE – 1865
- Polêmica que se estabeleceu entre os românticos, defensores do status quo literário, e os jovens revolucionários de Coimbra, dentre os quais se destacaram Antero de Quental,Teófilo Braga e Eça de Queirós;
- “Cenáculo”;
- 1875 “O crime do padre Amaro” – Eça de Queirós;
REALISMO EM PORTUGAL
l Eça de Queirós é apontado como o autor que introduz este movimento no país, sendo o romance social, psicológico e de tese a principal forma de expressão. Deixa de ser apenas distração e torna-se meio de crítica a instituições, à hipocrisia burguesa (avareza, inveja, usura), à vida urbana (tensões sociais, econômicas, políticas) à religião e à sociedade, interessando-se pela análise social, pela representação da realidade circundante, do sofrimento, da corrupção e do vício. A escravatura, o racismo e a sexualidade são retratados com uma linguagem clara e direta.
REALISMO EM PORTUGAL
l Vida e obra de Eça de Queirós
l Embora haja uma evolução na sua obra, a etapa mais interessante de Eça de Queirós é a realista (O primo Basílio). Com Antero de Quental e Teófilo Braga é um dos representantes do Realismo português.
l Está implicado em questões socio-políticas e literárias, participa em iniciativas ligadas ao Realismo, como é o caso de:
l As Conferências do Casino: nas que se debate sobre a realidade portuguesa e europeia e sobre literatura. O seu objectivo é a difusão do Realismo.
l Questão Coimbrã: assume em certo sentido o debate entre românticos e realistas.
l Da sua atividade profissional destaca:
l Está ligado à advocacia.
l Está muito ligado ao jornalismo:
l Os seus artigos recolhem-se no livro Prosas bárbaras.
l Co-dirige e colabora na publicação periódica As Farpas.
l Funda e dirige a Revista de Portugal.
l Leva a cabo atividades diplomáticas (viaja muito, o que se reflexa na sua obra):
l Trabalha em Leiria, onde teria escrito O crime do Padre Amaro (ambientada em Leiria na segunda metade do século XIX).
l É colocado no consulado português da Havana.
l Posteriormente irá para Inglaterra:
¡ Começaria ali O primo Basílio e outros projectos.
¡ Envia colaborações a jornais portugueses e brasileiros.
l Participa no consulado português na França, desde onde publica algumas das suas obras.
REALISMO EM PORTUGAL
l Evolução
¡ Fase realista, a mais importante:
l Está influenciado por Balzac, Zola e Flaubert, em especial pelos dois últimos. Eça também é crítico literário, pelo que conhece muito bem os realistas franceses e ingleses.
l Busca reflectir a realidade objetivamente, ao detalhe, de jeito impessoal.
l Há uma crítica a Portugal associada à necessidade de “europeizar” Portugal.
l A esta etapa pertencem as suas obras principais:
¡ Uma campanha alegre (1871)
¡ O crime do Padre Amaro (1875 – 1876)
¡ O primo Basílio (1878)
¡ O mandarim (1880)
¡ A relíquia (1887)
¡ Os maias (1888)
Fase social-nacionalista: Eça está decepcionado já que não conseguiu o seu objetivo e troca a sua atitude, agora quer salvar a Portugal baseando-se nas suas raízes e buscando aí um presente e um futuro satisfatórios. Não temos de esquecer que neste momento Portugal também o compõem os territórios africanos. As obras desta etapa são Últimas páginas (1912), na que defende Portugal face a Europa ridiculizando Paris, ou A cidade e as serras (1901).
Outras publicações: colaborações em jornais, obras póstumas...
REALISMO EM PORTUGAL
l O crime do Padre Amaro (1875 – 1876)
l Obra realista escrita em Leiria e pela que é acusado de ter plagiado La faute de l’Abbé Mouret de Zola, mas ainda que o título seja parecido e as duas sejam obras satíricas, a intriga é totalmente distinta. O autor retoca-a muitas vezes. As principais características desta obra são:
¡ Descreve:
l A hipocrisia do clero de províncias na 2ª metade do século XIX (celibato, preocupações materialistas...).
l A falta de palavra dos caciques políticos.
l A subserviência[1] dos comerciantes.
l A bisbilhotice[2] vingativa dos jornalistas.
l A vontade de criar escândalo.
l A piedade supersticiosa e jansenista das devotas.
¡ O comportamento das personagens está condicionado por:
¡ A hereditariedade, como é o caso de Amélia (a mãe tinha uma relação com um sacerdote e ela também).
¡ A educação.
¡ O meio (provinciano, fechado, conservador e hipócrita).
REALISMO EM PORTUGAL
l O Primo Basílio (1878)
l É um romance realista cujas principais características são:
¡ Descrição de interiores muito detalhada já que se ambienta numa casa, um espaço fechado. O ambiente determina a personalidade das personagens.
¡ Crítica à sociedade da capital, a hipocrisia da alta burguesia.
¡ Crítica à literatura romântica: Luísa está transtornada pela leitura de literatura romântica, obsessão que aproveita o seu primo Basílio, quem finge ser um galão romântico diante dela. Luísa é transvestida numa heroína romântica que acaba morrendo, feito que a Basílio lhe é indiferente.
l Os maias (1888)
l É uma das suas obras mais conhecidas. Critica a alta burguesia lisboeta (subornos, vingança, incesto, adultério....)
l Finalidade da sua obra realista
l A literatura realista de Eça de Queirós faz parte dum programa socio-político que consiste em criticar a sociedade para corrigi-la. Eça diz que a obra de arte e como um livro de anatomia: tem de analisar a sociedade como num livro de anatomia se analisa o corpo humano. Assim, critica:
¡ O clero e a sua influência nas pessoas.
¡ A média e alta burguesia lisboeta.
¡ A literatura jornalística e o jornalismo em geral.
¡ O comércio, a política, a literatura, povo...
l
REALISMO EM PORTUGAL
l - Socialismo, cientificismo, evolucionismo, positivismo, lutas antiburguesas, 2ª Rev. Industrial;
l Em 1881, com a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, inicia-se o Realismo no Brasil.
l No Brasil: abolição, República, romance naturalista, poesia parnasiana.
l Características do Realismo:
l Objetivismo;
Descrições e adjetivações objetivas;
l Linguagem culta e direta;
l Mulher não idealizada; real. Ex.: Marcela e Virgília (Memórias Póstumas de Brás Cubas), Sofia (Quincas Borba)...
l Amor e outros interesses subordinados aos interesses sociais;
l Herói problemático;
l Narrativa lenta, tempo psicológico;
l Personagens trabalhados psicologicamente.
REALISMO EM PORTUGAL
l DIFERENÇAS ENTRE REALISMO E NATURALISMO
l REALISMO
l - Forte influência da literatura de Gustave Flaubert (França).
l - Romance documental, apoiado na observação e na análise.
l - A investigação da sociedade e dos caracteres individuais é feita “de dentro para fora”, por meio de análise psicológica capaz de abranger sua complexidade, utilizando a ironia, que sugere e aponta, em vez de afirmar.
l - Volta-se para a psicologia, centrando-se mais no indivíduo.
l - As obras retratam e criticam as classes dominantes, a alta burguesia urbana e, normalmente, os personagens pertencem a esta classe social.
l - O tratamento imparcial e objetivo dos temas garante ao leitor um espaço de interpretação, de elaboração de suas próprias conclusões a respeito das obras.
l Naturalismo
l - Forte influência da literatura de Émile Zola (França).
l - Romance experimental, apoiado na experimentação e observação científica.
l - A investigação da sociedade e dos caracteres individuais ocorre “de fora para dentro”, os personagens tendem a se simplificar, pois são vistos como joguetes, pacientes dos fatores biológicos, históricos e sociais que determinam suas ações, pensamentos e sentimento.
l - Volta-se para a biologia e a patologia, centrando-se mais no social.
l - As obras retratam as camadas inferiores, o proletariado, os marginalizados e, normalmente, os personagens são oriundos dessas classes sociais mais baixas.
l - o tratamento dos temas com base em uma visão determinista conduz e direciona as conclusões do leitor e empobrece literariamente os textos.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
2º Colegial - CECI 2009- Realismo em Portugal
2º Colegial - CECI 2009 - Realismo: Introdução
REALISMO Professora Danielle Medici
REALISMO
¡ Positivismo – Augusto Conte (1850)
Só devem ser considerados como existentes os fatos positivos, quer dizer, aqueles que podem ser analisados cientificamente.
¡ Determinismo – Taine
O comportamento humano, e portanto da obra de arte que o investiga, é determinado pela confluência de três fatores: o meio, a raça e o momento histórico.
REALISMO
¡ Evolucionismo – Darwin (1859)
Na evolução das espécies, há uma seleção natural que faz os mais fortes derrotarem os mais fracos.
¡ Socialismo – Proudhon, Marx e Engels
Na luta de classes, o poder burguês tende a ser superado pelo poder do proletariado.
REALISMO
¡ Negação do Cristianismo – Renan
A crença absoluta nas conquistas das ciências – em detrimento da perspectiva religiosa como um todo, e do Cristianismo em particular – para explicar o universo.
REALISMO
¡ Surgimento
França, século XIX:
Realismo; Naturalismo e Parnasianismo.
REALISMO:
Madame Bovarri de Gustave Flaubert, 1857.
Obra que tematiza o adultério feminino e questina os males do casamento;
REALISMO
ROMANTISMO (1836-1881)
- Ênfase na fantasia;
- Predomínio da emoção;
- Proximidade emocional entre autor e os temas;
- Subjetividade;
- Escapismo (literatura como fuga da realidade);
- Personagens idealizados;
- Nacionalismo;
Ø REALISMO (1881 – 1893)
- Ênfase na realidade;
- Predomínio da razão;
- Distanciamento racional entre o autor e os temas;
- Objetividade;
- Engajamento (literatura como forma de transformar a realidade)
- Retrato fiel das personagens;
- A mulher numa visão real, sem idealizações...
- Universalismo.
REALISMO
Características do Realismo:
¡ Objetivismo;
Ø Descrições e adjetivações objetivas;
Ø Linguagem culta e direta;
Ø Mulher não idealizada; real. Ex.: Marcela e Virgília (Memórias Póstumas de Brás Cubas), Sofia (Quincas Borba)...
Ø Amor e outros interesses subordinados aos interesses sociais;
Ø Herói problemático;
Ø Narrativa lenta, tempo psicológico;
Ø Personagens trabalhados psicologicamente.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Para sempre... Clarice!
Clarice Lispector
Ao mesmo tempo que ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos, Clarice Lispector costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia, tendo afirmado mais de uma vez que jamais escreveria uma autobiografia. Contudo, nas crônicas que publicou no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, deixou escapar de tempos em tempos confissões que, devidamente pinçadas, permitem compor um auto-retrato bastante acurado, ainda que parcial. Isto porque Clarice por inteiro só os verdadeiramente íntimos conheceram e, ainda assim, com detalhes ciosamente protegidos por zonas de sombra. A verdade é que a escritora, que reconhecia com espanto ser um mistério para si mesma, continuará sendo um mistério para seus admiradores, ainda que os textos confessionais aqui coligidos possibilitem reveladores vislumbres de sua densa personalidade. A descoberta do amor
“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez. Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.Pois juro que a vida é bonita.”Temperamento impulsivo
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”Lúcida em excesso
“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.Ideal de vida
“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. [...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.É pouco, é muito pouco.”Escritora, sim; intelectual, não “Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade. [...] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora? O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”A síntese perfeita
“Sou tão misteriosa que não me entendo.”A certeza do divino
“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”Viver e escrever
“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.” “Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura. O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.” “Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.A importância da maternidade “Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”Viver plenamente
“Eu disse a uma amiga: — A vida sempre superexigiu de mim. Ela disse: — Mas lembre-se de que você também superexige da vida. Sim.”Um vislumbre do fim “Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”
Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.
Instituto Maris Celis
Queridos alunos,
Quero participá-los da minha imensa alegria de poder trabalhar com vcs este ano. Tenho certeza de que o sucesso é garantido!!
Contem sempre comigo, aqui, na escola e quando precisarem.
Bjs!!!
2009
Queridos alunos e visitantes,
Esse ano será de muito trabalho e estudo. Espero que por aqui tb, vcs encontrem um espaço para pesquisa e comunicação.
Para qualquer dúvida ou sugestão poderão enviar comentários. As aulas estarão disponíveis a partir do final de fevereiro, quando estaremos encerando os primeiros conteúdos.
Um grande abraço e obrigada pelo prazer da companhia de todos!!!
terça-feira, 1 de julho de 2008
3º Colegial - Grande sertão: veredas
Grandre Sertão: Veredas - Guimarães Rosa
Grande Sertão :Veredas - travessia que Riobaldo, narrador-personagem, faz em suas memórias a fim de narrar suas vivências a um "senhor" durante três dias. Travessia que Guimarães Rosa faz através do caráter insólito e ambíguo do homem, tornando uma experiência individual (Riobaldo ) em caráter universal - "o sertão é o mundo".
A primeira parte do romance (até aproximadamente à página 80), Riobaldo faz um relato "caótico" e desconexo de vários fatos (aparentemente sem relações entre si ), sempre expondo suas inquietações filosóficas (reflexões sobre a vida, a origem de tudo, Deus, Diabo, ...) -Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se fôr jagunço, mas a matéria vertente. "O discurso ambivalente de Riobaldo (...) se abre a partir de uma necessidade, verbalizada de maneira interrogativa". No entanto, há uma grande dificuldade em narrar e organizar seus pensamentos : Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas - de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. É o compadre Quelemém de Góis que lhe socorre em suas dúvidas, mas não de forma satisfatória, daí a sua necessidade de narrar.
A partir da página 80, Riobaldo começa a organizar suas memórias. Fala da mãe Brigi, que o obrigava à esmolação para a paga de uma promessa. É nessa ocasião, à beira do "Velho Chico", que Riobaldo se encontra pela primeira vez com o garoto Reinaldo, fazendo juntos uma travessia pelo rio São Francisco. Riobaldo fica fascinado com a coragem de Reinaldo, pois como este afirma : "sou diferente (...) meu pai disse que eu careço de ser diferente (...). A mãe de Riobaldo vem a falecer, sendo ele levado à fazenda São Gregório, de seu padrinho Selorico Mendes. É lá que Riobaldo toma contato com o grande chefe Joca Ramiro, juntamente com os chefes Hermógenes e Ricardão. Selorico Mendes envia o seu afilhado ao Curralinho, a fim de que tivesse contato com os estudos. Posteriormente, assume a função de professor de Zé Bebelo (fazendeiro residente no Palhão com pretensões políticas. Zé Bebelo, querendo pôr fim aos jagunços que atuavam no sertão mineiro, convida Riobaldo a participar de seu bando. Riobaldo troca as letras pelas armas. É desse ponto que começa suas aventuras pelo norte de Minas, sul da Bahia e Goiás como jagunço e depois como chefe.
O bando de Zé Bebelo faz combate com Hermógenes e seus jagunços, onde este acaba por fugir. Riobaldo deserta do bando de Zé Bebelo e acaba por encontrar Reinaldo ( jagunço do bando de Joca Ramiro), ingressando no bando do "grande chefe". A amizade entre Riobaldo e Reinaldo acaba por se tornar sólida , onde Reinaldo revela o seu nome - Diadorim - pedindo-lhe segredo. Juntamente com Hermógenes , Ricardão e outros jagunços , combate contra as tropas do governo e de Zé Bebelo .
Depois de um conflito com o bando de Zé Bebelo, o bando liderado por Hermógenes fica acuado, acabando-se por se separar , reunindo-se posteriormente. O chefe Sô Candelário acaba por integrar-se ao bando de Hermógenes , tornando-se líder do bando até o encontro com Joca Ramiro . Nessa ocasião , Joca Ramiro presenteia Riobaldo com um rifle , em reconhecimento à sua boa pontaria (a qual lhe faz valer apelidos como "Tatarana" e "Cerzidor") . O grupo de Joca Ramiro acaba por se dividir para enfrentar Zé Bebelo , conseguindo capturá-lo . Zé Bebelo é submetido a julgamento por Joca Ramiro e seus chefes - Hermógenes , Ricardão, Só Candeário , Titão Passos e João Goanhá - acabando a ser condenado ao exílio em Goiás .
Depois do julgamento, o bando do grande chefe se dispersa, Riobaldo e Diadorim acabam por seguir o chefe Titão Passos. Posteriormente, o jagunço Gavião-Cujo vai ao encontro do grupo de Titão Passos para informar a morte de Joca Ramiro, que foi assassinado à traição por Hermógenes e Ricardão ("os judas"). Riobaldo fica impressionado com a reação de Diadorim diante da notícia. Os jagunços se reúnem para combaterem os judas .
Por essa época , Riobaldo tem um caso com Nhorinhá (prostitutriz), filha de Ana Danúzia. Conhece Otacília na fazenda Santa Catarina, onde tem intenções verdadeiras de amor. Diadorim, em determinada ocasião, por ter raiva de Otacília, chega a ameaçar Riobaldo com um punhal.
Medeiro Vaz junta-se ao bando para a vingança, assumindo a chefia. Inicia-se a travessia do Liso do Sussuarão. O bando não agüenta a travessia e acaba por retornar. Medeiro Vaz morre. Zé Bebelo retorna do exílio para ajudar na vingança contra os judas, tomando a chefia do bando.
Por suas andanças, o bando de Zé Bebelo chega à fazenda dos Tucanos, onde são encurralados por Hermógenes. Momentos de grande tensão. Zé Bebelo envia dois homens para informarem a presença de jagunços naquele local. Riobaldo desconfia de uma possível traição com esse ato. O bando de Hermógenes fica acuado pelas tropas do governo e os dois lados se unem provisoriamente para escaparem dos soldados . Zé Bebelo e seus homens fogem à surdina da fazenda, deixando os hermógenes travando combate com os soldados. Riobaldo oferece a pedra de topázio a Diadorim, mas este recusa, até que a vingança tenha sido consumada .
Os bebelos chegam às Veredas-Mortas. É um dos pontos altos do romance, onde Riobaldo faz o pacto com o Diabo para vencerem os judas. Riobaldo acaba assumindo a chefia do bando com o nome de "Urutu-Branco"; Zé Bebelo sai do bando. Riobaldo dá a incumbência a "seô Habão" para entregar a pedra de topázio a Otacília, firmando o compromisso de casamento. O chefe Urutu-Branco acaba por reunir mais homens ( inclusive o cego Borromeu e o menino pretinho Gurigó).
À procura dos hermógenes, fazem a penosa travessia do Liso do Sussuarão, onde Riobaldo sofre atentado por Treciano, que é morto pelo próprio chefe. Atravessado o Liso, Riobaldo chega em terras baianas, atacando a fazenda de Hermógenes e aprisionando sua mulher . Retornam aos sertões de Minas, à procura dos judas. Encurralam o bando de Ricardão nos Campos do Tamanduá-tão, onde o Urutu-Branco mata o traidor. Encontro dos hermógenes no Paredão. Luta sangrenta. Diadorim enfrenta diretamente Hermógenes, ocasionando a morte de ambos. Riobaldo descobre então que Diadorim se chama Maria Deodorina da Fé Bittancourt Marins, filha de Joca Ramiro.
Riobaldo acaba por adoecer (febre-tifo). Depois de se restabelecer, fica sabendo da morte de seu padrinho e herda duas fazendas suas. Vai ao encontro de Zé Bebelo, o qual o envia com um bilhete de apresentação a Quelemém de Góis : Compadre meu Quelemém me hospedou , deixou meu contar minha história inteira. Como vi que ele me olhava com aquela enorme paciência - calma de que minha dor passasse; e que podia esperar muito longo tempo. O que vendo, tive vergonha, assaz .Mas , por fim , eu tomei coragem , e tudo perguntei:-"O senhor acha que a minha alma eu vendi , pactário?! "Então ele sorriu, o pronto sincero, e me vale me respondeu :
-"Tem cisma não. Pensa para diante. Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais ..."(...)Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. (...) Amável senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano , circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se fôr ... Existe é homem humano. Travessia.
- Linguagem Em Grande Sertão:
Veredas, Guimarães Rosa faz uma recriação da linguagem , "recondicionando-a inventivamente, saindo do lugar-comum a fim de dar maior grandeza ao discurso. Nu da cintura para os queixos (ao invés de nu da cintura para cima) e ainda Não sabiam de nada coisíssima (no lugar de não sabiam de coisa nenhuma) constituem exemplos do apuramento da linguagem roseana.
Toda a narrativa é marcada pela oralidade (Riobaldo conta seus casos a um interlocutor), portanto, sem possibilidades de ser reformulado, já que é emitido instantaneamente. Ainda tem-se as dúvidas do narrador e suas divagações, onde é percebido a intenção de Riobaldo em reafirmar o que diz utilizando a própria linguagem .
O falar mineiro associado a arcaísmos, brasileirismos e neologismos faz com que o autor de Sagarana extrapole os limites geográficos de Minas. A linguagem ultrapassa os limites "prosaicos" para ganhar dimensão poético-filosófica (principalmente ao relatar os sentimentos para com Diadorim ou a tirar conclusões sobre o ocorrido através de seus aforismos).
- Aforismos
1. Viver é muito perigoso
2. Deus é paciência
3. Sertão. O senhor sabe : sertão 'onde manda quem é forte , com as astúcias .
4. ...sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar .
5. ...toda saudade é uma espécie de velhice
6. Jagunço é isso . Jagunço não se escabreia com perda nem derrota - quase tudo para ele é o igual.
7. Deus existe mesmo quando não há . Mas o demônio não precisa de existir para haver .
8. Viver é um descuido prosseguido .
9. sertão é do tamanho do mundo
10. Vingar , digo ao senhor : é lamber , frio , o que o outro cozinhou quente demais .
11. Quem desconfia , fica sábio .
12. Sertão é o sozinho .
13. Sertão : é dentro da gente .
14. ...sertão é sem lugar .
15. Para as coisas que há de pior , a gente não alcança fechar as portas .
16. Vivendo , se aprende ; mas o que se aprende , mais , é só a fazer outras maiores perguntas .
17. ...amor só mente para dizer maior verdade .
18. Paciência de velho tem muito valor .
19. Sossego traz desejos .
20. ... quem ama é sempre muito escravo , mas não obedece nunca de verdade .
- Estrutura de NarrativaI -
TEMPO Psicológico . A narrativa é irregular ( enredo não linear), sendo acrescidos vários casos pequenos.
II - FOCO NARRATIVO Primeira pessoa - narrador-personagem - utilizando-se do discurso direto e indireto livre.
III - ESPAÇO A trama ocorre no sertão mineiro (norte) , sul da Bahia e Goiás . No entanto , por se tratar de uma narrativa densa , repleta de reflexões e divagações , ganha um caráter universal - "o sertão é o mundo".
IV PERSONAGENS· PRICIPAL:
Riobaldo : personagem-narrador que conta sua estória a um doutor que nunca aparece. Riobaldo sente dificuldades em narrar, seja por sua precariedade em organizar os fatos , seja por sua dificuldade em entendê-los. Relata sua infância, a breve carreira de professor (de Zé Bebelo ), até sua entrada no cangaço (de jagunço Tatarana a chefe Urutu-Branco), estabelecendo-se às margens do São Francisco como um pacato fazendeiro.·
SECUNDÁRIOS: Diadorim: é o jagunço Reinaldo, integrante do bando de Joca Ramiro. Esconde sua identidade real (Maria Deodorina) travestindo-se de homem. Sua identidade é descoberta ao final do romance, com sua morte.
Zé Bebelo: personalidade com anseios políticos que acaba por formar bando de jagunços para combater Joca Ramiro. sai perdedor, sendo exilado para Goiás e acaba por retornar com a morte do grande chefe para vingar o seu assassinato.
Joca Ramiro: é o maior chefe dos jagunços, mostrando um senso de justiça e ponderação no julgamento de Zé Bebelo, sendo bastante admirado .
Medeiro Vaz : chefe de jagunços que se une aos homens de Joca Ramiro para combater contra Hermógenes e Ricardão por conta da morte do grande chefe .
Hermógenes e Ricardão: são os traidores, sendo chamados de "judas", que acabam por matar Joca Ramiro. Muitos jagunços acreditavam que Hermógenes havia feito o pacto com o Diabo .
Só Candelário: outro chefe que ajuda na vingança. Possuía grande temor de contrair lepra.
Quelemém de Góis: compadre e confidente de Riobaldo, que o ajuda em suas dúvidas e inquietações sobre o Homem e o mundo.
· AS TRÊS FACES AMOROSAS DE RIOBALDO:
Nhorinhá : prostituta, representa o amor físico. O seu caráter profano e sensual atrai Riobaldo, mas somente no aspecto carnal.
Otacília: contrária a Nhorinha , Riobaldo destina a ela o seu amor verdadeiro (sentimental). É constantemente evocada pelo narrador quando este se encontrava desolado e saudoso durante sua vida de jagunço. Recebe a pedra de topázio de "seô Habão", simbolizando o noivado.
Diadorim : representa o amor impossível, proibido. Ao mesmo tempo em que se mostra bastante sensível com uma bela paisagem, é capaz de matar a sangue frio. É ela que causa grande conflito em Riobaldo, sendo objeto de desejo e repulsa (por conta de sua pseudo identidade).
1º Colegial: Quinhentismo
COLÉGIO INTERATIVO
LITERATURA
ENSINO MÉDIO
PROFESSORA DANIELLE MEDICI
COLÉGIO INTERATIVO
n LITERATURA DE INFORMAÇÃO
n A Carta a EL-rei d.Manuel é o primeiro de uma serie de textos sobre o Brasil, é um real registro do nascimento do Brasil. Nela são contados os primeiros contatos entre portugueses e nativos, as primeiras povoações em terras brasileiras, que não fossem índios,mas sim europeus. São obras escritas nesta época, quase sempre sem intenções artísticas,o objetivo delas eram informar a sociedade européia como estava sendo o trabalho e vida nas colônias recém-descobertas. Eram de grande importância porque registravam as condições de vida e a mentalidade dos primeiros colonizadores e habitantes das novas terras. Por isso que estes textos passaram a ser chamados de Literatura informativa sobre o Brasil. Além disso houve também a literatura dos jesuítas, esta com um objetivo mais religioso.
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n Os autores de destaque foram:
n Pero Vaz de caminha e Padre José de Anchieta.
n Muitos são as histórias dos viajantes que compararam o Novo Mundo ao Paraíso. Américo Vespúcio, que esteve no Brasil em 1503, Cristóvão Colombo, que foi o descobridor da América, e outros navegantes que escreveram cartas aos papas relatando terem encontrado o “Paraíso terreal”.
n Diferentes dos europeus colonizadores, os índios que viviam naquela região não tinham as doenças graves dos brancos, e nem conheciam a noção do pecado, eles viviam livres em suas terras em um regime de igualdade, comunhão de bens e decisões comunitárias.
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n A carta de pero Vaz de Caminha possui um grande valor histórico, mas um duvidoso valor literário já que sua carta teve o objetivo de informar a situação encontrada na nova terra.
Os dois grandes interesses presentes na carta de Caminha são:
- Interesse material (ouro e prata).
- Interesse espiritual (catequese dos índios).
- Descrição da flora, fauna e a geografia tanto dos nativos, como da própria terra.
n Agora tem-se alguns trechos da “carta a El-rei Dom Manuel”, por Pero Vaz de Caminha:
“E neste dia, a hora de véspera, houvemos vista de terra, isto é, primeiramente d’um grande monte, mui alto e redondo, e d’outras serras mais baixas a sul dele e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e a terra a terra de Vera Cruz.
E dali houvemos vista d’homens, que andavam pela praia, de 7 ou 8, segundos os navios pequenos disseram, por chegarem primeiro.(...) A feição deles é serem pardos, maneira d’avermelhados, de bons rostos e narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como tem em mostrar o rosto.
O capitão, quando eles vieram, estavam assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestidos, com um colar d’ouro mui grande ao pescoço. (...)Um deles, porém, pôs olho no colar do capitão e começou d’acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que havia também prata.
E uma daquelas moças era toda tinta, de fundo a cima, daquela tintura, a qual, certo, era tão bem feita e tão redonda a sua vergonha, que ela não tinha, tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais, feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela.
Nela até agora não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem nenhuma cousa de metal, nem de ferro; nem olho vimos. A terra, porém, em si, é de muito bons ares, assim frios e temperados como os d’Antre Doiro e Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem. Mas o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.”
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n A literatura Quinhentista foi uma continuação da literatura portuguesa.
n A literatura dos viajantes está baseada nas cartas, crônicas, relatório, documentos, enviados pelos padres, colonos, viajantes e aventureiros que falaram da flora, da fauna, da geografia e dos usos e costumes dos índios.
n Os colonizadores portugueses esperavam encontrar no Brasil as mesmas condições que os tornaram ricos com a exploração das índias. Os europeus ainda tinham em mente o mito do “Eldorado, a cidade de ouro”, uma região de incríveis riquezas, onde haveria pouco trabalho braçal e muito lucro. Este tipo de pensamento fez com que o colonizador português não se apegasse a terra e com isso o tratamento dado a ela foi de maneira agressiva, com o único objetivo de tirar toda a riqueza dela, sem medir as conseqüências. O pensamento do colonizador era somente um: enriquecer logo para poder voltar para Portugal rico.
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n A princípio no Brasil a fonte de renda para os colonizadores era o pau-brasil, embora tivesse um importante valor no mercado de negócios, não chegava a se igualar aos preciosos recursos do Oriente. Somente em 1532, aproveitando-se do preço compensador do açúcar, os portugueses iniciaram o cultivo do açúcar em terras brasileiras, auxiliados pelo trabalho escravo. No entanto, a Carta e os outros textos produzidos no início da colonização queriam apenas enaltecer exageradamente a terra e a fertilidade do solo, sem na verdade ter uma real analise da situação. Esse tipo de pensamento em relação ao Brasil sempre contribuiu para certos para equívocos prejudiciais que atrasaram o desenvolvimento da região. No Brasil ou em qualquer outro lugar, sempre será necessário muito trabalho, esforço e planejamento, só assim “dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”, como escreveu Pero Vaz de Caminha em sua carta a D.Manuel.
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n Além da Carta, os seguintes textos informativos foram de destaque:
n - Tratado da terra do Brasil (1570?) e Historia da Província de Santa Cruz a que vulgarmente foi chamada de Brasil (1576), de Pero Magalhães Gandavo;
n - Tratado descritivo do Brasil (1587), de Gabriel Soares de Sousa;
n - Diálogos das grandezas do Brasil, escrito em 1618 por Fernandes Brandão.
n São encontrados nas obras da literatura informativa, muito elementos que mais tarde vieram a servir para dar uma base para compor o indianismo de Gonçalves Dias, José de Alencar, Gonçalves de Magalhães e outros escritores do romantismo.
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n LITERATURA DOS JESUÍTAS
n A carta que o padre Manuel da Nóbrega escreveu, descrevendo a chegada da primeira missão jesuítica no Brasil, por ele chefiada, em 1549, inaugurou a literatura informativa dos jesuítas no Brasil, já que eles contribuíram em muito nesta parte da literatura.
n O maior representante deste tipo de literatura entre os jesuítas foi o padre José de Anchieta.
n José de Anchieta (1534-1597) nascido numa das ilhas Canárias e chegou ao Brasil em 1553; assim que chegou colaborou com Manuel da Nóbrega na fundação de um colégio em Piratininga, vilarejo que daria origem a cidade de São Paulo.
n Além disso, ele escreveu cartas, sermões, poesias e peças teatrais, utilizou os idiomas: latim, Tupi e português, em suas obras onde teve uma grande influência missionária.
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n POESIA
n Anchieta utilizava em suas poesias as antigas medidas, ou seja, versos de cinco ou sete sílabas nos cancioneiros medievais. Anchieta também escreveu poemas de sentido religioso, com versos fáceis de serem cantados em cerimônias da igreja. Na verdade eram poesias essencialmente ingênuas, com conteúdo simples, mas direto, sem muita complexidade para poder ser bem aceito e entendido na sociedade européia, pois era ela que patrocinava as expedições e viagens.
n TEATRO
n Também com a intenção de catequizar os índios, impor os conceitos europeus a eles, Anchieta foi o introdutor do teatro no Brasil. Suas peças seguiam as tradições dos teatros medievais, principalmente tendo como modelo os autos de Gil Vicente.
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n O Auto de São Lourenço é a obra mais importante delas: é uma peça trilíngue , porque abrangeu três idiomas:Castelhano, Tupi, português. Também teve a dança cantada, onde o tema predominante foi a luta de São Lourenço e São Sebastião contra os demônios, que infelizmente tinham nomes tupis como Guaixará e Amberê,com isso a cultura indígena passa a ser desvalorizada, pois os heróis eram santos conhecidos e adorados pelos europeus,mas os vilões tinham origens na cultura dos nativos. O objetivo disso era supostamente adaptar a visão catequética para a realidade indígena. Mas na realidade ser for bem analisado esta adaptação de visão serviu para transformar os índios( por acaso donos da terra) em vilões ou de inferiores aos brancos.
n A peça foi apresentada no pátio da Capela de São Lourenço, no Morro de São Lourenço, em Niterói (RJ), em 1583.